Um dos 50


Em Maio de 2011 fui mencionado por Ricardo Jordão (@bizrevolution) em uma lista dos “50 Brasileiros que todo empreendedor deve seguir no Twitter“.

Como o blog dele é muito popular, recebi uma onda de seguidores em Twitter no Brasil (mais de 200 em alguns dias), e muitos pedidos para começar a publicar conteúdo em Português.

Sempre gostei de escrever em Português mas faltava ter a audiência. Agora não tem mais desculpa. Abri uma conta em Twitter (@Marcio_SaitoBR) e prometo começar a blogar na língua materna.

Os assuntos vão ser os mesmos do meu blog em inglês (Mídias Sociais, Social Business, Montanhismo, Vinho, Comida, Cotidiano), mas com um foco adicional em empreendedorismo e California-Brazil.

Meu primeiro artigo vai ser “Vale do Silício – Perspectiva de um Brasileiro”, prometido para o dia primeiro de Junho aqui mesmo em http://MarcioSaito.com. Você tem alguma curiosidade a respeito do Vale? Gostaria de saber onde almoçar quando vier visitar? Me diga sobre o que escrever. Se você tiver outras sugestões de temas, é só avisar aí embaixo nos comentários.

Até então, veja o conteúdo em Inglês aqui ou visite o meu business blog.

Se quiser ajudar a divulgar, peçam para os amigos seguirem @Marcio_SaitoBR em Twitter.

Obrigado.

Dia de Ação de Graças


Essa semana nos EUA onde eu moro é quando as pessoas param (o único feriado quando as coisas realmente param por essas bandas) por uma razão importante. Não estou falando do peru assado nem das liquidações nos shoping centers.

É hora de expressar Gratidão.

Gratidão é a emoção positiva nós sentimos quando recebemos um benefício. Dizer “Obrigado” é expressar essa emoção que, eu acredito, é a essência da vida em comunidade. É reconhecer o fato de que nós dependemos de outros para viver, para ser.

Se não tomarmos cuidado, começamos a usar “Obrigado” como mero protocolo social. As vezes é bom trazer o significado da expressão de volta ao consciente.

Quando penso muito, fico incomodado com nossa expressão para expressar gratidão. “Obrigado” parece dizer que “agora eu te devo alguma coisa”.

Não sou historiador ou linguista, mas minha teoria é que a expressão tem raízes em um momento histórico onde gratidão era moeda social trocada por lealdade política ou algo assim.

Em minhas andanças pelo mundo, eu sempre me interessei em saber a expressão local para expressar gratidão e a atitude social por trás da expressão.

O meu “obrigado” favorito é o da Malásia. Eles dizem “Terima Kasih”. Traduzido literalmente, significa “Receba Amor”.

Para ver como o mundo diz obrigado, aqui está uma lista de Obrigados em outras línguas.

Obrigado por ler meus artigos nesse blog e Feliz dia de Ação de Graças.

Formigas Argentinas


Semana passada, minha casa (na California) foi invadida por Formigas Argentinas. Isso acontece todo ano no final do verão. Então eu sei o que fazer. Tenho que colocar a única marca de veneno que funciona com as ditas cujas e daí ter paciência e viver dois dias com as formigas até o veneno fazer efeito.

Não se se vocês já ouviram a história, mas as formigas chegaram a da Argentina e se deram bem por aqui. Hoje elas formam uma única super-colônia que cobre 1000 quilometros da costa Californiana.

Eu imagino que para uma formiga, achar uma migalha de comida no chão da minha cozinha é desafio comparável a achar um específico torcedor do Flamengo no Maracanã lotado. Mas, trabalhando de forma colaborativa, formigas conseguem executar essa tarefa com eficiência surpreendente.

Umas quarenta formigas entram na cozinha e começam a explorar ao acaso. Pode levar uma hora ou duas, mas no final uma delas acaba encontrando a migalha de comida. Ela então começa uma nova busca por uma companheira. Encontrando, as duas tocam as antenas por um momento: achei comida.

A formiga original volta à migalha, marcando o caminho quimicamente de forma que outras possam seguir a trilha. A segunda formiga vai procurar a próxima para espalhar a notícia.

A mágica acontece. Em menos de dez minutos depois da primeira descoberta, a coisa converge rápidamente. Uma trilha se forma entre o ponto onde as formigas entram na casa e a migalha de comida. Um exército de centenas de milhares invade minha cozinha.

Imagino que cada formiga não tenha a menor idéia da missão coletiva. Ela apenas segue um programa bem simples gravado no instinto individual. Mas, através da colaboração, a comunidade de formigas executa uma tarefa complexa (achar uma migalha de comida no chão de uma cozinha) com “inteligência” e eficiência surpreendentes.

A lição das formigas: indivíduos iguais, trabalhando colaborativamente, sem comando centralizado (tem a rainha, mas ela não parece muito ditadora) podem executar tarefas complexas que estão além da habilidade (ou mesmo a compreensão) individual.

Fico pensando se somos como formigas, inconscientes da nossa missão coletiva.

Tenho certeza que podia ter outras idéias interessantes derivadas da observação das formigas. Mas era hora de preparar o jantar.

Jogando Bola Com a Sissi


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O Graham é um Inglês que trabalha comigo aqui na California. Nós dividimos uma sala. Ele anda estranho, mais quieto que o normal, incomodado.

Hoje era sexta-feira, estávamos no happy hour e perguntei:

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, nada.

– Tem certeza? Você anda quieto.

– Essa cerveja… boa, né?

Percebi que, seja lá o que incomodava, ele não queria falar.

Mudei de assunto.

– Vocês jogaram futebol essa semana? Como foi o jogo?

– A cerveja… boa.

Ele ficou vermelho. Desconversou. Deu uma desculpa e disse que tinha que ir.

Estranho. Fui investigar a história.

Os brasileiros do escritório organizaram um time para jogar futebol. Convidaram o Graham.

Quando a gente fala de futebol, sempre brincamos que os Ingleses que inventaram, mas os Brasileiros é que são penta campeões.

Ele se empolgou. Se preparou. Foi na loja e comprou chuteiras novas (inglesas, modelo David Beckham, caríssimas).

O jogo foi na terça-feira a noite.

Perderam de 8 x 1.

Pior: o outro time era de mulheres.

Ele não quer mais falar de futebol. Chegou em casa, não falou para a família do jogo. De mal-humor, botou as chuteiras novas no armário. Sabia da fama dos brasileiros, mas perder de 8 x1? Para um time de mulheres?

Está sofrendo.

Mas o que ele não sabe é que o time adversário tinha algumas jogadoras que já foram profissionais, incluindo a Sissi, que jogou nas seleção brasileira e alguns anos atrás era considerada uma das melhores do mundo. Para quem não sabe, a Sissi ensina futebol aqui perto de San Francisco.

Mas como no campo só se falava Português, o Graham não entendeu nada. Ninguém contou pra ele. Disseram que o jogo era contra “umas brasileiras”.

Cheguei em casa agora a noite depois de entender o que tinha acontecido e pensei em ligar e explicar que não é motivo de vergonha perder para aquele time. Que a Sissi jogou na seleção.

Mas resolvi deixar ele sofrer o final de semana. Na segunda, eu conto.

A Filha do Radoslaw


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Ontem, encontrei um amigo que não via a algum tempo.

Embora não seja importante para essa história, o nome dele é Radoslaw Szambelan. Sem brincadeira. Ele é polonês e eu o chamo de Radek. Fiz uma pesquisa e parece que Szambelan é um nome comum na Polônia. Tem até uma Vodka famosa com esse nome.

Mas enfim, conversa vai, conversa vem, perguntei quais eram as novidades.

– Eu tenho uma conta no Facebook.
– Você? Eu nunca ia imaginar.
– Pois é. Eu resisti, mas teve uma hora que não dava mais. Estou lá.
– Como foi que isso aconteceu?
– Te conto. Estou até gostando.

O Radek não é a pessoa você ia imaginar participando de redes sociais. Ele me diz que a gota d’água foi que o grupo de teatro da filha começou a divulgar a programação de atividades através do Facebook. Ele protestou e pediu que eles comunicassem através de memorando em papel, mas que a resposta foi: não temos recursos para comunicar em papel ou atualizar nosso website. Estamos divulgando lá, se quiser saber a programação, abra uma conta e se conecte a nossa página.

A contragosto, ele foi. Radek agora é social.

Me explicou que está gostando. Que além de saber dos eventos do grupo de teatro, ele se conectou com amigos e familiares na Europa e que fica sabendo de coisas que nunca saberia se não estivesse usando. Está até usando Facebook no trabalho.

Mas o grande insight veio quando eu perguntei por que ele acha que as pessoas usam Facebook, Twitter, Yubliss, essas coisas.

Ele me explicou: Agora, qualquer um de nós, sem saber nada de tecnologia ou ter acesso a recursos pode dizer o que quiser e expor nossa opinião para o mundo todo. Mais que isso, nós temos acesso a opinião de outras pessoas na nossa comunidade. Sabemos o que comprar, que filme assistir, que restaurante ir, sem precisar da ajuda do crítico de cinema ou do guia de restaurantes. A Internet deixa todo mundo falar, nos transforma em uma comunidade virtual.

Para quem não me conhece, eu tenho pensado muito sobre o efeito da Internet na sociedade nos últimos anos. Mas não tinha chegado à essência. Radek disse: Com a Internet, gente como a gente pode expressar opinião para o mundo ouvir.

A mídia impressa, sendo unidirecional por natureza, favorece a comunicação de um “expert” para uma audiência menos informada, que recebe a comunicação mas não tem a oportunidade de contribuir, reagir, responder ou protestar.

A mídia digital muda essa dinâmica. De repente, todo mundo tem direito a uma opinião. Não tem mais monopólio da mídia. Fico pensando qual é o efeito disso em jornalismo, educação, empresas, governo…

Muito o que pensar.

Tudo porque a filha do Radoslaw faz teatro. E o grupo de teatro só usa Facebook.

Japônes Latino Nota 10


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Eu chegando no restaurante:

– Mesa para quantos?

– Seis… não, sete. Peraí, peraí. Seis.

(a recepcionista me olhando com impaciência)

– Seis! Seis, tenho certeza.

As vezes é difícil contar pessoas, especialmente se elas elas ficam se mexendo e se alguns ainda estão chegando.

Como preparação para o início de uma nova década, a maioria dos países fazem um recenseamento, a tarefa ingrata de contar cada um de seus habitantes e tentar saber detalhes da vida de cada um deles.

Eu moro na California, então sou contado aqui. Depois do jantar ontem (onde tivemos que sentar um pouco apertados porque no final eramos 7), cheguei em casa e achei o formulário do censo americano na minha caixa do correio. Abri o envelope curiosamente porque não é todo dia que isso acontece.

Leio no site do IBGE que o censo brasileiro vai contar cerca de 58 milhões de domicílios, 230 milhões de pessoas. A tarefa vai empregar 230 mil pessoas e custar cerca de R$1.4 bilhões. Eu entendo a importância de coletar dados demográficos para ajuda no planejamento dos programas de governo, distribuir serviços, etc.

Mas mesmo assim, me parece uma tarefa impossível.

Fiquei um pouco desapontado com o formulário, apenas 10 perguntas em uma página. Achei que o governo ia querer saber mais detalhes… Nome… quantas pessoas vivem aí?… casa própria ou alugada?… telefone no caso de precisarmos de mais esclarecimentos…

Tudo ia bem até: “Você é de origem hispânica/latina?”

Comecei a examinar as opções com aquela sensação que todo estudante tem ao encontrar a primeira questão da prova em que não se tem a menor idéia da resposta. “Não”, “Sim, do México”. “Sim, de Cuba”. Ah, eles querem saber de onde eu vim. A última opção era “Sim, outro país (por exemplo, Venezuela, Espanha, Argentina…)”. Quem vem da Espanha é hispânico? Eu achava que quem vinha da Espanha era Espanhol. Será que Brasileiro também é hispânico? Vou ter que chutar. Chutei “Sim, outro país” e escrevi “Brasileiro”.

A próxima pergunta era a respeito de raça e tinha umas 20 opcões, mas nada de ter brasileiro. Aparentemente Brasileiro não é raça. Minha certidão de nascimento diz que eu tenho pele amarela, mas essa opção também não constava (tinha branco, mas não amarelo). O que fazer?

Para quem não me conhece, meus avós imigraram do Japão para o Brasil nos anos 30, meus pais nasceram no Brasil. Eu cresci me declarando “brasileiro” e não quis aprender falar a língua ou gostar de comida japonesa.

Torci o nariz, mas acabei escolhendo “Japones”.

Não quis pensar muito. Botei o formulário no envelope e joguei de volta na caixa do correio com aquela sensação que não tinha ido bem na prova. Devo ter tirado nota 8.

Redes Sociais e a Sabedoria das Multidões


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Outro dia, estava ouvindo no rádio um programa a respeito do uso da Internet, e a pessoa entrevistada disse: ninguém vai me convencer a usar esses sites de relacionamento. Se eu quiser falar com minha irmã, por que eu o faria na frente de um computador? É melhor pegar o telefone e conversar com ela diretamente.

A relutância em abraçar novas tecnologias é quase natural e não foi isso que capturou minha atenção. O que ficou na minha memória foi a contradição da última frase: É melhor pegar o telefone e falar com ela diretamente.

Imaginei essa pessoa dizendo para o Graham Bell em 1876, no dia que ele apresentava o telefone recém-inventado Por que telefone? É muito melhor ir à casa de minha irmã e conversar com ela ao vivo.

Da mesma forma que o telefone não substituiu a comunicação face-a-face, interação através de sites de relacionamento (social networking) na Internet apenas adiciona outra esfera de comunicação entre as pessoas. Esses sites permitem comunicação rápida e conveniente, normalmente sobre assuntos triviais que não justificam o esforço exigido por outros métodos mais trabalhosos.

Facebook e Orkut são dois exemplos populares. Nos últimos anos, o Brasil se tornou o país com a maior proporção de usuários desses serviços no mundo. Então novos desenvolvimentos nessa área são de interesse do internauta brasileiro e o Brasil é importante para qualquer inovação a respeito de social networking.

A Sabedoria das Multidões (The Wisdom of the Crowds, definido pelo autor James Surwiecki em 2004) é outro fenômeno associado à mídia de Internet, ainda pouco explorado. O conceito é que a agregação de informação entre um grupo de pessoas resulta em um conhecimento maior ou decisões melhores que qualquer membro do grupo seria capaz de expressar individualmente.

Um exemplo concreto da Sabedoria das Multidões é o site de internet Wikipedia.

Wikipedia é uma enciclopédia virtual criada através de um projeto comunitário. Iniciado em 2001 e hoje contendo 10 milhões de artigos em 260 idiomas diferentes, ela foi escrita por voluntários que não precisam provar nenhuma qualificação especial e contribuem livremente, sem censura ou controle formal de qualidade.

Uma enciclopédia escrita dessa forma nunca vai produzir informação confiável, correto? O fato é que, hoje, Wikipedia é usado como referência em meios profissionais, oferecendo maior cobertura de assuntos e qualidade de conteúdo comparável as enciclopédias tradicionais.

Como é que uma multidão anônima, usando apenas a boa-vontade de gente comum consegue produzir material capaz de superar o produto de doutores e outros experts?

O artigo correspondente ao verbete Graham Bell no Wikipedia, por exemplo, é resultado da contribuição de mais de 3 mil pessoas. Cada uma delas escreveu um pouco. Talvez alguém mal-intencionado tenha vandalizado o texto, mas outro voluntário percebeu e corrigiu a informação. Nenhum deles sozinho tinha a informação toda, mas o resultado é um artigo consultado mais de 4 mil vezes por dia por gente no mundo inteiro buscando informação a respeito do inventor do telefone.

Quando estudo a história da tecnologia, gosto de prestar atenção não só à primeira inovação, mas também à segunda onda derivada da combinação e aplicação de inovações anteriores (como o telefone, que veio depois do telégrafo).

Eu imagino a possibilidade de combinar social networking e the wisdom of the crowds. Será possível criar ambientes virtuais onde não só se pode comunicar com outras pessoas, mas também, de alguma forma, interagir com a sabedoria da multidão anônima e utilizá-la para enfrentar desafios outros além de criar uma enciclopédia?

O futuro é que vai dizer. Esse é apenas um exemplo das possibilidades abertas pela nova mídia de Internet e estamos apenas iniciando na jornada de aplicá-la para a solução de novos problemas.

Fico pensando o que a pessoa entrevistada no programa de rádio (ou, seja lá o que substituir o rádio no futuro) vai dizer daqui a 50 anos. Por que me preocupar com isso? É melhor entrar na rede e resolver esse problema de uma vez.

This post was originally written to support the launch of the Yubliss site and was published as a byline article by several online and print publications in Brazil.